Aparência não é Argumento: O Trunfo Perdido de BAP

Durante uma reunião oficial do clube realizada no dia 23 de dezembro, o Presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista (BAP), tratou de pontos importantes para a temporada de 2026; como a contratação de jogadores, a renovação com o atual técnico do masculino profissional, Filipe Luiz, e outros assuntos, como o futebol feminino.

BAP questionou de forma contundente sobre os baixíssimos valores de repasse pelas empresas de comunicação – especialmente ao Grupo Globo – pelas transmissões do futebol feminino. Valores estes que não chegam a R$500 mil, enquanto o clube investe somente no futebol feminino a quantia de R$22 milhões, perdendo valores de marketing e outros, que ficam apenas com as emissoras, sem nenhum repasse aos clubes. BAP também falou sobre o quanto o futebol feminino tem crescido em audiência, reforçando a importância destes repasses serem feitos aos clubes. 

O presidente do Flamengo estava indo muito bem, até proferir o “aquela nariguda lá”. 

A “nariguda” em questão é a jornalista e narradora Renata Mendonça, da TV Globo; que tece críticas pesadas acerca do que considera “baixo investimento e desvalorização” do futebol feminino pelo Flamengo. 

Vocês podem perguntar: “mas qual foi o erro do cara? Ele apenas disse verdades!”

Meus caros, a questão aqui não é o fato de ele ter ou não falado verdades sobre o Grupo Globo, ou sobre o quanto o Flamengo é perseguido ou criticado de maneira irascível pela imprensa – principalmente a imprensa paulista. Tampouco é o fato de que várias jornalistas mulheres, inclusive a própria Renata, criticarem a diferença brutal de investimento e o tratamento disponibilizado às atletas femininas em relação aos atletas masculinos (o que é um fato). 

O ponto é COMO ele se refere a uma profissional: criticando a aparência de uma mulher, de forma jocosa, jorrando machismo e misoginia. Aquela velha história que já estamos acostumadas: se somos muito assertivas, ou se estamos em alguma posição de poder ou relevância, o nosso castigo sempre será o nosso corpo e a nossa aparência, que deve passar pelo crivo ferrenho de um homem.

Afinal, mulher falando de futebol e tendo opinião sobre futebol? Vai lavar uma louça, querida! Nera nem pra você tá aqui!

O ponto aqui não é passar a mão na cabeça da Renata – que é uma profissional de relevância histórica no jornalismo esportivo brasileiro, já que foi a primeira mulher a narrar um jogo do esporte bretão nas telas tupiniquins. Até porque a própria jornalista já se colocou de forma irascível diante da diretoria do clube por sua “negligência/má vontade” ao futebol feminino, deixando passar despercebida a mesma postura de outros clubes, como o Palmeiras, por exemplo. 

O ponto é: é sério mesmo que para isso tem que atacar a aparência de uma mulher? 

Vamos a alguns fatos: pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que mais de 40% de adolescentes entre 13 a 17 anos tem dificuldades em aceitar seus corpos como são. A incidência do Transtorno Dismórfico Corporal (TDC) entre mulheres varia entre 5% a 35%. A incidência de transtornos alimentares, como anorexia e bulimia, é muito maior em mulheres. Só no ano de 2025, o Brasil registrou mais de 2 milhões de cirurgias ou procedimentos cirúrgicos com finalidade estética. 

Você pode perguntar “mas o que tem a ver uma coisa com a outra, Juliana?”

Tem a ver com a ideia sufocante de que nós mulheres jamais seremos aceitas no futebol, pois vivemos em um mundo que sempre irá nos punir da maneira mais sutilmente perversa apenas por existir, nem que pra isso precisemos morrer, até porque a nossa vida não vale nem meia mariola para o patriarcado. 

Dito isto, a crítica a Renata pelo presidente do Flamengo, ao tratar sobre futebol feminino (o que torna a fala de BAP muito pior), só reforça o quanto ainda precisamos avançar enquanto sociedade, mas sobretudo, enquanto modalidade esportiva que ainda é imbuída desse ódio profundo a mulheres. Uma sociedade que ainda reduz a competência e a capacidade de uma mulher a um nariz, a uma barriga, um braço… 

É absurdamente exaustivo ter que explicar o óbvio em plena véspera de Natal. Em pleno 2025. Mas, vamos mais uma vez: nossa capacidade profissional ou intelectual não se reduz a nossa aparência, rapazes. A gente sabe que para vocês, jamais seremos o suficiente. E na real, a gente já tá bem é de saco cheio de vocês nos criticando (até porque nem vocês se esforçam para seguir algum padrão). Creio que Renata deva estar pouco se lixando também. Entendam de uma vez por todas: isto não significa que vocês homens tenham passe livre para falar da nossa aparência para nos atingir profissionalmente ou pessoalmente.

É deprimente, até porque, presidente, vamos combinar aqui que o senhor também não é nenhuma autoridade no quesito beleza, não é mesmo?

No fim das contas, o que poderia ser um trunfo acertadíssimo do BAP ao criticar o Grupo Globo, e mostrar as demais jornalistas mulheres as contradições da empresa para qual a própria Renata trabalha, acerca do futebol feminino, sua fala saiu como mais um tapa, ou um vômito induzido de alguma adolescente – talvez até uma atleta do Flamengo – ou até no risco de morrer em uma mesa de cirurgia para algum procedimento estético; tudo isso porque um homem mais uma vez nos colocou como qualquer coisa, menos gente. 

Desnecessariamente. Gratuitamente. 

Como é o machismo e a misoginia nosso de cada dia que nos mata cotidianamente. 

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Publicado por

Juliana Moitinho

Assistente Social, mestranda em Serviço Social e Desenvolvimento Regional pela UFF, feminista e Flamenguista.

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