O homem invisível

Voo Cego

Este texto foi publicado no X.com e Instagram no dia 21 de outubro de 2025, dois dias depois da vitória do Flamengo sobre o Palmeiras no Maracanã. A época, mesmo após a vitória, o trabalho de Filipe Luís seguia muito contestado pela grande mídia e na véspera da decisão da Copa Libertadores, de novo contra o Palmeiras, ainda era visto como azarão contra o supercampeão Palmeiras de Abel Ferreira. Filipe seguiu invisibilizado, para a sua sorte. Saudações rubro-negras e boa leitura!

Quando nos prendemos a uma narrativa, é difícil se desvencilhar dela. A realidade não é suficiente para desconstruir o que montamos com a nossa imaginação e desejamos que se torne verdade. No último domingo, mais uma vez, a realidade confrontou fortes narrativas que teimam em se perpetuar.

De um lado, um jogo definido pela má arbitragem fortalece a narrativa de que o Flamengo é um clube sempre beneficiado pelo “sistema”. Em 1981, seu primeiro título da Libertadores só ocorreu porque o juiz teria roubado o jogo contra o Atlético-MG. Pouco importa que apenas em 2014 o Galo tenha vencido o Flamengo em uma definição de mata-mata, depois de alguns fracassos históricos; que o rubro-negro daquela época tenha conquistado, em doze anos, mais títulos do que muitos clubes grandes conquistaram em toda a sua história; ou que o Palmeiras, seu principal adversário no Campeonato Brasileiro, tenha sido beneficiado em pelo menos cinco jogos, de forma decisiva.

No extremo oposto, temos uma lição sendo dada: um centroavante injustiçado, tratado como um bagre, um preguiçoso, e que mostrou ao mundo — e, principalmente, ao seu agressor — que é o melhor atacante do país e que nunca deveria ter sido colocado, em hipótese alguma, no banco de reservas. Os críticos estavam certos, e a violência simbólica pública contra Pedro, por parte de Filipe Luís, envelheceu mal.

Escondido pelas narrativas, numa pequena fresta chamada realidade, está Filipe Luís — implorando a Pedro que o ouça e se adapte a um futebol que, enquanto ele se recuperava de uma grave ruptura de ligamentos, mudou. Um futebol que consagra Dembélé, mas não exclui o atacante mais alto, pesado e menos móvel, como Harry Kane. Bastava a Pedro fazer o que todos fazem nesse futebol tão competitivo: melhorar a cada dia, superar-se, ir além — o que se espera de um atleta aos 28 anos. No atletismo, mais recordes; no esporte coletivo, mais competência para vencer seus marcadores. Pedro jamais faria o gol que fez se se limitasse a fazer gols. Hoje, os gols são feitos por talento nas finalizações, calma e frieza, precisão técnica e roubadas de bola quando as defesas estão expostas.

Podemos e devemos ser românticos ao nos deliciarmos com o drible desconcertante do camisa 9 em Martínez, com a genialidade do passe de Arrascaeta no terceiro gol do clássico nacional; mas, para vencer no futebol atual, todos devem pressionar o adversário para atrapalhar sua jogada. Apenas dois minutos com um homem a mais foram suficientes para que o Palmeiras tivesse vantagem decisiva e empatasse o jogo. Cada detalhe decide, e cada metro é um detalhe.

Encoberto pelo ego de treinadores, comentaristas e torcidas, que custam a reconhecer o talento do jovem treinador, está lá Filipe Luís, a dizer que seu adversário é melhor do que ele. Não é falsa humildade; é uma escolha de como viver: sempre se cobrando, sempre insatisfeito e nunca se exaltando. Disse: “No final das contas, quem joga são os jogadores”, buscando, na verdade, utilizar um superpoder — o da invisibilidade. Só assim é capaz de motivar atletas, tranquilizá-los e surpreender sempre o inimigo.

Fico receoso de publicar um texto assim. Provavelmente, estou estragando o plano de Filipinho. Para ele, é melhor que não o exaltem, que o desmereçam, que não enxerguem seu papel no desempenho técnico de Pedro, no vigor físico inédito na carreira de Arrascaeta, na capacidade de reinserir Erick, nosso touro mecânico, depois de três meses fora de combate. É tudo sorte ou obviedade. Não obstante, a identidade do rubro-negro com o seu comandante é a de uma torcida que não canta o jogo todo, mas explode quando menos se espera. Somos todos invisíveis até sermos inevitáveis.

Publicado por

vinialmeida81@gmail.com

Professor de História e torcedor e sócio do Clube de Regatas do Flamengo. Fundador do Blog Crônicas da Nação e escritor do Le Monde DIplomatique Brasil.

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